N utrição da criança: educação alimentar
  Data: 27/10/2004



Crianças com idades entre 7 e 10 anos, estudantes de escolas localizadas no bairro paulistano de Vila Mariana, foram expostas durante um ano letivo a ações educativas, com a utilização de jogos e um conto infantil, para aprender a se alimentar corretamente e, dessa maneira, prevenir doenças na idade adulta. "Ao final, observamos mudanças pequenas, porém, consistentes", avalia o coordenador da pesquisa, professor José Augusto Carrazedo Taddei, do Departamento de Pediatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). "Houve diminuição do consumo de guloseimas, pequeno aumento na atividade física e redução na obesidade", diz.

Um dos primeiros resultados concretos do estudo é um jogo educativo, chamado Prato Feito , previsto para ser lançado comercialmente até o final do ano pela empresa Pais&Filhos, de Aparecida do Taboado, em Mato Grosso do Sul. A disputa para chegar ao final do tabuleiro envolve 40 cartas de perguntas. Em uma delas a criança tem como tarefa escolher a melhor opção para substituir o jantar por um lanche. Entre as alternativas encontram-se: leite com café e pão com margarina, suco de fruta e sanduíche de peito de frango, pipoca e refrigerante dietético e dois pedaços de pizza de calabresa. Em outra pergunta, a resposta correta indica o leite como o alimento que deve ser ingerido três vezes por dia, em média, para um crescimento com "ossos fortes".

Sem anemia
Não faltam também perguntas sobre qual o alimento que melhora o aproveitamento de ferro* nas refeições ou quais os sintomas que uma criança com anemia pode apresentar. "Na primeira edição do jogo serão fabricadas 3 mil unidades, das quais 150 ficarão com a Unifesp, que se encarregará de distribuí-las gratuitamente a instituições interessadas no caráter educativo do Prato Feito", diz Fabrício Lalucci Pereira de Souza, diretor da empresa.

A idéia de criar um jogo comercial surgiu em decorrência dos resultados obtidos na pesquisa, feita com cerca de 2.500 alunos do ensino fundamental da rede estadual. O projeto, financiado pela FAPESP, abrangeu oito escolas, todas no mesmo bairro, para facilitar o deslocamento dos pesquisadores. Um sorteio definiu as quatro escolas onde seriam feitas as intervenções educativas com os alunos. As outras quatro ficaram como grupo controle, para comparação dos resultados obtidos.

A pesquisa começou com avaliações antropométricas (peso e estatura) de todas as crianças, tanto do grupo de intervenção como de controle. A coleta de dados incluiu a distribuição de questionários aos pais, compostos de 38 perguntas que abordavam hábitos alimentares e de atividade física da criança, além da condição socioeconômica familiar. Para a segunda fase, a equipe de pesquisa desenvolveu quatro jogos educativos, que depois serviram de base para o jogo comercial. O da memória, por exemplo, tratou do tema de alimentos equivalentes, segundo sua função e valor nutritivo. Já o da pirâmide permitiu a exploração das diversas possibilidades para compor uma dieta balanceada. O conto educativo também apresentou conceitos relacionados à dieta balanceada e a hábitos alimentares saudáveis.

Coube aos professores das escolas cuidar das atividades propostas durante os horários de aula. Foram 15 horas de atividade por semestre, durante um ano. Para isso eles receberam treinamento, que consistiu em um curso de extensão universitária com 40 horas de duração. "O treinamento teve como objetivo transmitir conhecimentos que resultem em atitudes e práticas voltadas para a diminuição do consumo de sal, de gordura saturada e de carboidratos simples (doces, por exemplo), além de promover aumento da atividade física", diz Taddei. No final da pesquisa foram repetidos os procedimentos de avaliação da primeira fase, para poder fazer uma análise comparativa e a estatística dos resultados alcançados com a intervenção educativa dirigida para os professores e, por tabela, aos alunos.

Os resultados que ficaram evidentes foram a diminuição do consumo excessivo de doces e salgadinhos industrializados, prática definida pelos pesquisadores como mais de duas porções consumidas em quatro ou mais dias da semana, nos grupos de alunos que foram expostos às ações educativas. O projeto também provocou nos alunos um maior interesse pelas aulas de educação física. Uma mudança significativa observada diz respeito ao comportamento dos professores, que também se sentiram motivados a aumentar o nível de atividade física.

Obesidade e televisão
O outro dado importante apareceu ainda no início da pesquisa. A avaliação de peso apontou que 10,5% dos estudantes participantes do projeto eram obesos, porcentual que representa mais do que o dobro dos 4,5% registrados entre as crianças brasileiras na última pesquisa nacional de alimentação e nutrição, feita em 1989. Segundo os pesquisadores, esse resultado é compatível com o aumento da obesidade observado entre os escolares do País nos últimos anos. O número de horas que a criança passa assistindo à televisão também mostrou ser um fator que contribui para o excesso de peso, principalmente se esse período ultrapassar quatro horas por dia.

O problema está dentro de um processo de transição nutricional, segundo Taddei. As crianças estão consumindo mais sal, açúcares e gorduras, com redução do consumo de carboidratos complexos (frutas, legumes e cereais integrais, por exemplo), situação que aponta para uma epidemia de obesidade e doenças associadas. As facilidades da vida moderna, com a conseqüente redução da atividade física cotidiana, contribuem para agravar esse quadro. "A meta da educação nutricional desenvolvida no ambiente escolar é instruir crianças e adolescentes sobre os princípios gerais de nutrição, orientando comportamentos específicos para que estes se tornem aptos a fazer escolhas conscientes ao longo de suas vidas", diz Taddei. O que mostra, mais uma vez, que a escola é o local adequado para promover o desenvolvimento de hábitos saudáveis





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