O ESCORBUTO E A DESCOBERTA DA VITAMINA C
  Data: 22/08/2004


Hoje se sabe que o escorbuto é uma doença causada pela falta de vitamina C na dieta alimentar. Como o corpo humano não pode sintetizar vitamina C, é fundamental que ela seja incorporada por meio da ingestão diária de alimentos ricos nessa vitamina, como frutas e verduras, para evitar a sua deficiência e, consequentemente, o surgimento dos sintomas do escorbuto. No entanto, antes da identificação da vitamina C e de sua importância para o organismo, o escorbuto era considerado uma enfermidade epidêmica em algumas regiões da Europa.

Os sintomas mais comuns da doença são: cansaço, dor muscular e nas articulações e hemorragias espontâneas nas gengivas e na pele que demoram a cicatrizar.

Sendo durante muito tempo uma doença de origem desconhecida, o escorbuto foi considerado um dos males da Idade Média, do qual sofriam principalmente as tripulações dos navios que faziam grandes trajetos na época. Devido às epidemias nos navios, eram atribuídas a ele as mais curiosas origens, como por exemplo, que era um mal devido ao sangue corrompido, ou à temperatura fria dos mares, e, inclusive, à madeira verde dos barcos. Os navegantes espanhóis a chamaram "a peste das naus", os portugueses a conheciam como "mal de Luanda" e os ingleses como "peste do mar".

O temor e as mortes causadas pelo escorbuto, que foi tratado como uma enfermidade contagiosa durante dois séculos e meio, levaram ao surgimento de numerosos e curiosos tratamentos com o fim de acabar com a doença.

Estes tratamentos eram empregados sem sucesso até que James Lindt (1716-1794), médico da marinha inglesa, começou a realizar experimentos com a tripulação doente. Por causa da dieta dos marinheiros e de soldados em suas campanhas militares que, em geral não apresentava quantidades suficientes de Vitamina C, pois frutas e verduras frescas não resitiam às longas viagens por mar, estes apresentavam sangramento nas gengivas, dentes soltos, hemorragias, juntas doloridas, letargia e feridas que não cicatrizavam, o que caracterizava o escorbuto. James Lindt escolheu a doze marinheiros afetados pela enfermidade, aos quais administrou seis dietas diferentes, para observar sua evolução. Lindt descobriu que somente o grupo ao qual era fornecido o suco de limão e laranja como parte da dieta evoluía favoravelmente de sua condição. Apesar de não identificar o agente causal da enfermidade (a falta da vitamina C), a sua cura passou a ser conhecida, dando aos marinheiros da Armada Inglesa o apelido de "limely" ou bebedores de limão. O remédio para o escorbuto foi adotado rapidamente nos outros países.

O escorbuto, que atingiu milhões de pessoas desde o Egito antigo até o final do século XIX, causando a morte de mais de 2 milhões de marinheiros entre 1500 e 1900, influenciou o curso da História. Apesar da descoberta da cura do escorbuto - que foi divulgada pelo livro Um estudo do Escorbuto, escrito por James Lindt em 1753, no qual a laranja e o limão eram apontados como os remédios mais efetivos contra a doença - o isolamento da vitamina C e a identificação de sua deficiência como causa do escorbuto surgiu bem mais tarde.

O cientista duas vezes Nobel, Linus Pauling dizia que gostaria de ser lembrado como a pessoa que "descobriu a Vitamina C". Apesar do primeiro isolamento da vitamina C ter sido obtido pelo cientista húngaro Albert Szent-Györgyi em 1928, ela foi "redescoberta" por Pauling, em 1967. Foi ele que provou a importância de terapias baseadas no consumo de vitamina C para processos infecciosos, como as gripes, dedicando boa parte de sua vida ao estudo desta subtância. Nos seus últimos anos de vida, Linus Pauling publicou um trabalho relatando que concentrações significativas de Vitamina C podem impedir, in vitro, a duplicação do vírus HIV.

Hoje, depois de muitos trabalhos científicos desenvolvidos, sabe-se que a vitamina C é indispensável ao bom funcionamento do nosso organismo. Conhecida como uma substância muito versátil, esta vitamina que foi uma vez a cura para o escorbuto, tem um papel muito mais amplo: ela participa na formação e manutenção do colágeno no organismo humano, substância que dá sustentação aos músculos, pele, dentes e ossos; ajuda na cicatrização de feridas; atua no sistema imunológico; ajuda no transporte e absorção de ferro no organismo; contribui para a fixação do cálcio nos ossos, combatendo a osteoporose; protege as paredes dos vasos sangüíneos e possui, ainda, ação antioxidante, havendo evidências de que a Vitamina C pode aumentar os níveis do HDL - o colesterol bom - ajudando a eliminar depósitos de gorduras das artérias, reduzindo o risco de doenças cardiovasculares. Uma vez que nosso organismo não produz a Vitamina C, ela deve ser ingerida diariamente, com o consumo de frutas e suco de frutas com alto teor desta vitamina, como a laranja e o limão e outros cítricos




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