Como os povos do Oriente Médio que bebiam leite conquistaram a Europa
Data: 18/10/2010

Uma nova pesquisa revelou que a agricultura chegou até a Europa em meio a uma onda de imigração do Oriente Médio durante o período neolítico. Os recém-chegados prevaleceram sobre os locais por causa de sua cultura sofisticada e domínio da agricultura e seu alimento milagroso, o leite
Jens Lüning, arqueólogo alemão especializado no período pré-histórico, induziu os habitantes locais da Europa Central a semear e produzir leite com “zelo missionário”. O novo conhecimento foi logo transmitido para outros grupos. Esse processo continuou num ritmo rápido, num espírito de “cooperação pacífica”, de acordo com Lüning:
• Por volta de 7000 a.C., começou uma migração em massa de fazendeiros do Oriente Médio para a Europa.
• Estes antigos fazendeiros trouxeram consigo gado domesticado e porcos.
• Não houve cruzamento entre os invasores e a população original.
Os novos moradores também tinham um tipo de alimento milagroso à sua disposição. Eles produziam leite fresco que, como resultado de uma mutação genética, logo puderam beber em grande quantidade. O resultado foi que a população de fazendeiros cresceu e cresceu.
Esses insights surpreendentes vieram por parte dos biólogos e químicos. Numa série de artigos em revistas especializadas como a “Nature” e “BMC Evolutionary Biology”, eles viraram muitas as visões existentes de cabeça para baixo ao longo dos últimos três anos.
O grupo mais importante está trabalhando no projeto “Leche” (nome inspirado pela palavra espanhola para leite), uma associação de 13 institutos de pesquisa de vários países da União Europeia. O objetivo do projeto é examinar geneticamente a origem da manteiga, leite e queijo. O homo sapiens era originalmente incapaz de digerir leite puro. Geralmente, o corpo humano só produz uma enzima capaz de quebrar a lactose no intestino delgado durante os primeiros anos de vida. De fato, a maioria dos adultos na Ásia e na África reagem ao leite de vaca com náusea, flatulência e diarreia.
Mas a situação é diferente na Europa, onde muitas pessoas têm uma diminuta modificação do cromossomo 2 que permite a elas digerirem lactose durante toda sua vida sem ter nenhum problema intestinal. A porcentagem de pessoas com essa modificação é mais alta entre os britânicos e escandinavos.
Há muito se sabe que essas diferenças estão baseadas nas origens primeiras dos europeus. Mas onde vivia o primeiro ser humano que bebia leite? Quem foi o primeiro ser humano a beber o leite de vaca sem sofrer as consequências?
Alguns tinham mutações genéticas que os permitiam beber leite sem passar mal. Eles foram os verdadeiros progenitores do movimento.
Como resultado da “evolução acelerada”, a tolerância à lactose foi selecionada numa larga escala dentro da população no espaço de cerca de 100 gerações. A Europa se tornou a terra do eterno recém-nascido uma vez que as pessoas passaram a beber leite durante a vida inteira.
O novo alimento era especialmente benéfico para as crianças. Na Era Neolítica, muitas crianças pequenas morriam depois de serem desmamadas no quarto ano de vida. “Consumindo leite saudável, isso pode ser bastante reduzido”, especula o biólogo Fritz Höffeler. Tudo isso levou a um crescimento populacional e, como resultado, à uma expansão geográfica ainda maior.
Isso explica por que os inventores da foice e do arado conquistaram a Europa tão rápido, levando ao fim dos antigos caçadores-coletores?
Imagine um vilarejo da cultura da cerâmica linear no meio do inverno. Enquanto a fumaça sobe do topo de uma cabana de madeira, a mesa do lado de dentro está cercada de crianças de bochechas vermelhas, bebendo leite quente com mel, que sua mãe acabou de preparar. É uma imagem que pode ajudar a explicar porque as pessoas adotaram um estilo de vida sedentário.
Burger, entretanto, está convencido de que o leite desempenhou um papel importantíssimo na história, assim como a pólvora fez mais tarde. “Houve uma revolução branca”, diz ele.
Fonte: Der Spiegel, 2010




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